O ABC das Mulheres

05/04/2010 17:13

Não, meu caro leitor do sexo masculino. Infelizmente, esse não é um manual que explica como entender as mulheres, apesar de o título acima poder passar essa idéia. Seria muita pretensão deste repórter que vos escreve pensar ter encontrado tal fórmula. Propositalmente ambígua, essa chamada refere-se na verdade ao “ABC das Mulheres”, capitaneado por lideranças femininas que ocupam lugar de prestígio nas sete cidades.

Empreendedorismo, política, administração pública, vida acadêmica. Esses são ainda universos muito associados a uma presença predominantemente masculina. Mas neste especial do site da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, será possível ver que, pelo menos na Região, mulheres já vem fazendo a diferença com atuação audaciosa nesses segmentos.

Empreendedorismo

Josephina Irene Cardelli
Gerente Regional do Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa de São Paulo (Sebrae-SP) no Grande ABC

No Grande ABC, Josephina Irene Cardelli, que se permite chamar simplesmente por Josi, é sinônimo de Sebrae-SP. Radicada em Santos, essa paulistana da Vila Prudente, de família de origem italiana, sobe e desce a serra diariamente para coordenar os projetos da instituição nas sete cidades, função que ocupa já há três anos, sem vestígios de qualquer cansaço.

Para Josi, estar na Região vem sendo uma escola, devido à sua singularidade. “A Região é muito complexa e desafiadora e o modelo de governança nela instituído é exemplar. O ABC é uma referência no Brasil e, para mim, uma grande escola. Aprendi muito e espero estar aqui por mais tempo para contribuir com a Região”, afirma. E essa frase é impactante, pois vem de uma profissional com a bagagem de 17 anos de Sebrae.

Josi iniciou a carreira na entidade de apoio à micro e pequena empresa em 1993, como assistente técnico administrativo financeiro. Antes disso, formada em Ciências Econômicas pela Universidade Católica de Santos, passou por cargos na tesouraria do Sindicato de Comércio Varejista da Baixada Santista, ligado à Associação Comercial de Santos. São quase 30 anos de experiência na área empresarial.

Dentro do Sebrae, em 1998, depois de processo seletivo interno, assumiu a Gerência do escritório Capital Norte da instituição, na região de Santana, e apenas três meses após tal promoção foi novamente alçada a um posto mais alto, assumindo o escritório da Baixada Santista, onde ficou responsável por nove municípios. De 2002 a 2004, compartilhou também a gerência do Vale do Ribeira, tendo sob seu comando 32 municípios do Estado. Em 2006, o Sebrae passou por uma reestruturação e Josi foi encarregada da missão de integrar os escritórios do Grande ABC, que até então eram três – Diadema, Santo André e São Bernardo do Campo, para fazer um trabalho focando no desenvolvimento regional.

Atualmente, Josi gerencia seis projetos setoriais, os chamados Arranjos Produtivos Locais, em segmentos estratégicos: Metalmecânico, Plásticos, Design, Tecnologia da Informação, Moveleiro e Gráfico – os dois primeiros em parceria da Agência GABC. Além disso, existem outros programas, como CESTEC, também em trabalho com a Agência, voltado para a inovação tecnológica; e o Projeto Bairros Fortes, conjuntamente conduzido com Prefeitura de São Bernardo do Campo.

Para Josi, é uma grande satisfação ver, com o passar de sua carreira, a evolução gradual da participação feminina tanto na política como nos negócios. “Hoje já não existem, como há anos atrás, reuniões exclusivamente masculinas. Atualmente, é comum encontrar homens e mulheres em nível de igualdade. Acredito que isso é bom. Nas equipes com equilíbrio de gênero, os resultados fluem mais naturalmente”, diz a Gerente do Sebrae Grande ABC.

Por outro lado, na sua opinião, ainda existem dificuldades a serem superadas. “A mulher já conquistou seu espaço, mas as estatísticas ainda nos desfavorecem. Algumas barreiras precisam ser vencidas”.

Comércio

Silvana A. P. Gubitoso
Proprietária da Gubisom Variedades e Utilidades Domésticas

A história de Silvana A. P. Gubitoso e de sua empresa, a Gubisom Variedades e Utilidades Domésticas, mistura-se ao processo de formação do município de Mauá. A comerciante, mãe de três filhos e avó de quatro crianças, está na cidade desde antes da emancipação. Ela é mais uma das mulheres homenageadas neste especial do site da Agência GABC.

Ela é mais uma mulher com visão de futuro atuante no Grande ABC. Quem afirma isso é seu filho mais velho, Sidnei Gubitoso, que considera a mãe a principal responsável pelo crescimento do negócio da família. “Minha mãe é um exemplo de mulher empreendedora. A partir do momento em que ela se casou com o meu pai, o empreendimento dele e do meu avô foi para frente. Com o meu amadurecimento e do meu irmão, nós agregamos alguma coisa, mas ela teve a percepção do negócio.”

A biografia de Silvana e do esposo Silvio remete às origens de Mauá. A comerciante chegou à cidade há 59 anos, de onde não saiu mais. Nos tempos de escola, conheceu o esposo Silvio Gubitoso, falecido 24 anos atrás em um acidente de moto. Quando se casaram, Silvana tinha 18 anos e Silvio já detinha uma pequena loja, uma eletrotécnica, que consertava rádios a válvula. “Não era bem um comércio. Eles eram técnicos, não eram comerciantes”, relembra a empresária. Com a falência da Porcelana Mauá, um dos seus principais clientes, a loja foi muito prejudicada. Além disso, o negócio não atendia às novas demandas surgidas com o crescimento da cidade.

Mas Silvana já vislumbrava um rumo diferente para o negócio da família. “Eu guardava um dinheiro no banco e ele não sabia”, revela. Nos anos 80, com essa quantia poupada somada a um empréstimo a juros baixos no Banco do Brasil, a Gubisom passou por uma primeira reforma, que alavancou as vendas. “Depois da reforma da loja, na qual tornamos o pé direito mais alto, o movimento melhorou 50%”, afirma Silvana. Depois disso, a família realizou outras três reformas. Por um período, os Gubitoso mantiveram também na parte superior da loja uma vídeolocadora, fechada há cinco anos devido à decadência recente desse mercado.

Além do papel de empresária, Silvana representou também o papel de mãe. Quando seu marido faleceu, os filhos Sidnei, Fernando e Silas tinham respectivamente 22, 18 e 4 anos. Mesmo assim, ela considerou natural continuar a administrar a loja. “Não foi difícil, mesmo com a morte do meu marido, tocar o negócio, porque eu sempre o ajudei desde quando eu me casei”, diz Silvana. E, paralelamente, ela educou os filhos. Hoje Sidnei – graduado bacharel matemática pela Universidade de Campinas (Unicamp), e Fernando – formado em administração de empresas e computação, a ajudam na condução da Gubisom. O filho caçula, Silas, hoje com 28 anos, formou-se recentemente Geólogo pela Universidade de São Paulo (USP).

Como reconhecimento dessa trajetória, Silvana Gubitoso recebeu diversos prêmios, entre os quais o de “Mãe do Ano”, concedido pela Associação Comercial e Industrial de Mauá – ACIAM a mulheres que se destacaram no município.

Poder Público

Doutora Eliana Bernardo da Silva
Secretária Executiva do Consórcio Intermunicipal Grande ABC

“Filha” de Mauá, como ela mesma se considera, Dra. Eliana Bernanrdo da Silva ingressou na vida pública em 1982, por amor à cidade, e desde então são quase 30 anos de dedicação aos cidadãos do Grande ABC. Segundo Dra. Eliana, essa trajetória lhe ensinou que são dois os pilares que sustentam a carreira pública. “Aprendi duas coisas nesses 30 anos de vida pública: você tem que ter o conhecimento, caso contrário você fica para trás; e você não faz nada sozinha, é preciso ter humildade e pessoas ao seu lado”, afirma.

O primeiro órgão em que atuou foi a Câmara de Mauá, durante a gestão Leonel Damo, ali permanecendo até 1987. Com a vivência na Câmara, decidiu abandonar a competência de Tradução e Intérprete, que cursava até então, para ingressar na Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo. Enquanto estudava na FDSBC, prestou concurso para o poder judiciário e começou a atuar, em 1988, no Fórum de Mauá, como Escrevente de sala de Audiência. Em 1993, assumiu a Procuradoria Pública do município, na Gestão de Luiz Carlos Grecco, encerrando esse período em 1997.

Depois, entre 1997 e 1998, atuou na Armazéns Gerais de São Bernardo do Campo – Agesbec, empresa pública de São Bernardo do Campo, onde Presidiu a Comissão de Licitações. No ano seguinte, abriu seu próprio escritório de Advocacia, sendo convidada pela cooperativa da Volkswagen a conduzir assessoria jurídica da empresa em Taubaté, onde ficou até 2004. De volta ao Grande ABC, foi convidada pelo então prefeito recém-eleito de Ribeirão Pires Clóvis Volpi para conduzir a Secretaria Jurídica do Município. Na Prefeitura, dirigiu também a Secretaria Administrativa e a Secretaria de Assuntos Estratégicos.

Em 2009, assumiu a Coordenação Administrativa do Consórcio Intermunicipal, em um ano de transição para o Consórcio Público. Em 2010, foi conduzida ao cargo de Secretária Executiva da instituição, o que lhe provocou sentimentos diversos. “Depois da surpresa de ter sido indicada pelo Prefeito Volpi, veio o êxtase, por ver que poderemos construir no Consórcio tudo o que pensávamos. Esse ano de 2010 é de transformação para o Consórcio, principalmente no que diz respeito ao Planejamento Regional Estratégico”.

Ser a primeira mulher a ocupar o cargo máximo da entidade não intimidou Dra. Eliana, que afirma ter objetivos bem consolidados. “Sou a 1ª mulher a sentar nessa cadeira, mas independente disso, tenho uma meta, que é alavancar o Consórcio. O meu foco é fortalecer os Grupos de Trabalho e criar ações concretas, passando sempre por quatro etapas: planejamento, metas, prazos e ações”, explica a Secretária Executiva.

No momento, Dra. Eliana vê também outras mulheres ocupando cargos de destaque na Região, o que segundo ela é muito positivo. E destaca, em especial, uma personalidade. “Admiro muito, por exemplo, a dona Bia Braga (empresária do ramo de transporte coletivos), uma mulher empreendedora. Admiro-a em todos os aspectos”, enfatiza.

Para seu futuro pessoal, Dra. Eliana imagina três grandes ações: “Eu quero morrer trabalhando… trabalhando menos [risadas], mas trabalhando. Além disso, meu sonho é chegar ao fim da vida cuidando também de animais, porque eu amo animais. E penso também em passar o meu conhecimento, adquirido nessa trajetória de vida pública. Se você se fecha, um dia acaba morrendo e ele morre com você.”, completa a Secretária Executiva do Consórcio.

Turismo

Luciana Marçola de Campos
Proprietária da Lukatur Turismo

Luciana Marçola de Campos é uma sulsancaetanense autêntica. Mas sua investida no Turismo, ironicamente, se deu inicialmente muito longe do Grande ABC, quase que sem querer, como ela mesma explica: “Eu caí de pára-quedas no Turismo”. A empresária, proprietária da Agência de Turismo Lukatur, começou a atuar no segmento em Uberlândia, no triângulo mineiro, onde, em 1987, acabou contratada pela Localiza, empresa focada no de aluguel de veículos. Desde então, são 20 anos no setor.

Depois de dois anos em Minas Gerais, Luciana decidiu voltar para São Caetano, e devido à experiência adquirida começou a trabalhar na Unidas Rent a Car e, posteriormente, voltou à Localiza. Em 1991, ingressou na operadora Concórdia Turismo, umas das empresas mais atuantes na época, onde ficou por dois anos. Dali, transferiu-se para a Pan Express e para a Visual Operadora, onde ficou por mais 4 anos. Passou ainda pela Agaxtur e pela Varig, ficando dois anos em cada uma dessas companhias.

Depois desse percurso, Luciana já havia acumulado 13 anos de Turismo e sentiu-se madura e com bagagem para abrir seu próprio negócio. “Depois de tantos anos no mercado, foi inevitável abrir a minha empresa, foi uma conseqüência do trabalho”, afirma a proprietária da Lukatur.

Desde então, Luciana vem conduzindo a agência de turismo, baseando-se sempre no atendimento integral e irrestrito ao cliente. Tanto que até mesmo suas noites de sono já foram incomodadas pelo trabalho. “O empresário quer alguém que cuida da viagem dele com dedicação. Por isso, estou no celular 24h. Já aconteceu de me ligarem às 1h da manhã para resolver problemas”, conta. Mas Luciana não reclama. “Isso para mim é normal. Faz parte da vida do empreendedor. O que vale é a satisfação final do cliente”.

Com atuação principalmente no segmento corporativo, a Lukatur propicia para Luciana o atendimento a ambientes predominantemente masculinos. Contudo, a empresária, não vê grandes barreiras atualmente nessa relação. “Não vejo dificuldades em lidar com essas situações, mesmo muitas vezes negociando com as empresas. Hoje o mercado está bem aberto”.

Especificamente no setor do Turismo, Luciana sente que, por outro lado, a presença das mulheres poderia ser mais efetiva. “No Turismo, eu acho que poderíamos ter mais mulheres atuando e com mais afinco. Eu não vejo tanta audácia nesse setor”, revela. Porém, segundo ela, esse movimento está começando. “Mas há sim hoje muitas mulheres à frente de Agências”.

Educação

Rivana Basso Fabbri Marino
Vice-reitora de Extensão e Atividades Comunitárias da Fundação Educacional Inaciana “Pe. Sabóia de Medeiros”

A vida profissional e pessoal da Vice-reitora de Extensão e Atividades Comunitárias da FEI, Rivana Marino, está marcada profundamente pela instituição de ensino superior localizada no Grande ABC. Profa. Rivana formou-se em Engenharia Química na FEI na turma de 1983. Além disso, conheceu seu marido, também engenheiro formado pela FEI, durante o período de faculdade, e casou-se com ele na capela localizada no campus da universidade. Recentemente, viu também seu filho formar-se engenheiro pelo Centro Universitário, enquanto a outra herdeira formar-se-á também ali no final de 2010.

Depois da graduação e de concluir Mestrado e Doutorado na Universidade de São Paulo (USP), Rivana iniciou carreira como professora aulista na FEI, primeiramente em período parcial. Posteriormente, vinculou-se ao quadro de docentes com dedicação integral à instituição.

Com um certo tempo de casa, assumiu a chefia do departamento de Engenharia Química. Daí, tornar-se Vice-reitora foi um processo natural. E mesmo o acolhimento dos demais colegas foi positivo, inclusive com brincadeiras. “Só me dei conta do que representava estar na Vice-reitoria quando fizeram uma brincadeira, dizendo: ‘nossa, deixaram uma mulher ter poder na FEI’. Mas nunca me senti discriminada”, revela.

Dentro da FEI, Profa. Rivana viu crescer a participação feminina no curso em que se graduou, há quase 20 anos. “Atualmente, no curso de Engenharia Química, tem bastante presença feminina, é quase divido. Quando eu comecei, já havia muitas mulheres, mas era algo em torno de 20% da turma”. No corpo docente, porém, as mulheres ainda são minoria, segundo ela, apesar do crescimento constante. “Os professores são predominantemente homens. Têm crescido o número de mulheres, mas estamos longe da equivalência”.

No entanto, a atuação em um meio ainda maciçamente dominado por homens nunca gerou dificuldade em sua carreira. “Eu nunca me preocupei com isso. Acredito que é mais uma questão de ter os valores alinhados com os da instituição”. Para Rivana, o sexo é apenas detalhe e como passar dos anos a sociedade tem se adaptado a isso. “Ser homem ou mulher não faz diferença [na carreira], ou não deveria fazer. E a mulher está conquistando um espaço que ela não tinha. Na geração da minha filha, por exemplo, a maioria trabalha, é até difícil encontrar uma que não tem profissão”, explica a Vice-reitora.

Na opinião de Rivana, a maior dificuldade para as mulheres ainda é a jornada dupla. “A gente acaba acumulando a responsabilidade do trabalho e da casa”. Entretanto, ela afirma que isso não é problema. “Vale a pena”, celebra a professora.

Fonte: Filipe Rubim – Depto. de Comunicação da Agência Grande ABC

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