Seminário promove debate sobre o papel estratégico da indústria do Grande ABC

12/04/2016

Desafios conjunturais, estruturação de política de desenvolvimento econômico de longo prazo e alternativas para retomada do crescimento a partir do setor foram destacados durante evento

Foto: Rodrigo Zerneri/PMM

O Grande ABC, conhecido e reconhecido pela dimensão de seu parque industrial e pelo pioneirismo do setor no país, está assumindo mais uma vez a dianteira dos debates sobre futuro da economia local. Na manhã desta terça-feira, dia 12, Diário do Grande ABC, Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC e Consórcio Intermunicipal Grande ABC, com apoio da Braskem, promoveram seminário para discutir possíveis rumos da indústria regional.

Três paineis reuniram diferentes atores locais – gestores públicos, empresários, trabalhadores, acadêmicos, entre outros. “A desindustrialização do Grande ABC”, “O Polo Petroquímico no ABC” e a “Indústria Automotiva” regional foram os temas centrais do seminário – pontapé para as discussões que deverão resultar em proposições para identificar quais os possíveis caminhos para o setor industrial. As informações apresentadas hoje, bem como análises e opiniões expressas durante o evento, também poderão subsidiar a tomada de decisões em prol do desenvolvimento econômico das sete cidades nos próximos anos.

Iniciando a atividade, o diretor de Redação do Diário do Grande ABC, Sérgio Vieira, questionou a quem compete os resultados do desempenho econômico local, e propôs reflexão aos participantes: “será que a responsabilidade desse cenário difícil que se encontra o setor (industrial) do Grande ABC é do Poder Público? É do governo Federal? Do governo Estadual? Dos municípios?”. A partir disso, sugeriu a criação do que chamou de “força tarefa” para “encontrar alternativas concretas que podem resultar em soluções definitivas para o problema sério que o Grande ABC vive”.

No primeiro painel de debates, sobre “A Desindustrialização no Grande ABC”, o professor Sandro Maskio, coordenador do Observatório Econômico da Universidade Metodista de São Paulo, chamou a atenção para dados estatísticos que demonstram a queda da participação da indústria e suas consequências.

Nos anos 70, o setor industrial do Grande ABC representava aproximadamente 11% do PIB industrial. Esse número caiu para 6,7% em 2013. A flutuação das taxas de crescimento da indústria, que chegou a 9,9% de média anual na década de 70, também foram atreladas ao desempenho industrial da região.

Outro dado que indica a retração da indústria local foi a participação do setor no PIB regional, que registrou, de acordo com informações da Fundação Seade, queda de quase 10 pontos percentuais de 2008 até 2013.

Ainda que tenha perdido força na geração de emprego – com o crescimento da participação do setor de serviços de 20%, no final dos anos 80, para 40% em 2012, o setor industrial permanece como o segmento com melhores salários, o que reforça, segundo Maskio, sua importância na dinâmica econômica local.

A primeira rodada de discussões contou com a participação do presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC e prefeito de Mauá, Donisete Braga, que falou a importância de os atores locais buscarem, por meio do diálogo, convergência.

Braga sinalizou a necessidade de medidas inovadoras em cenários desafiadores. Como exemplo, mencionou projeto de Lei aprovado pela Câmara Municipal de Mauá no último ano referente à Permuta de Áreas, que permite a investidores assumirem áreas públicas e, em contrapartida, construírem espaços públicos para a Prefeitura. “Nesse momento, precisamos ser criativos para produzir boas políticas e boas práticas para a região”, disse.

Representando o Consórcio Intermunicipal Grande ABC, o prefeito de Santo André, Carlos Grana, relembrou a concepção e constituição de ambientes institucionais na região, como o próprio Consórcio e a Agência de Desenvolvimento Econômico. No início dos anos 2000, recordou Grana, a articulação dos atores locais foi decisiva para a manutenção do Polo Petroquímico de Capuava, que sofria com entraves burocráticos da legislação para manter suas atividades no ABC.

Grana afirmou, ainda, que há mais a ser feito. “Temos que cobrar mais o Estado e a União, aproveitando a articulação dos prefeitos. Toda a comunidade deve estar inserida neste processo”.

O segundo painel de debates abordou o “Polo Petroquímico do ABC e o potencial de desenvolvimento da cadeia produtiva da química e do plástico”. A diretora de Economia e Estatística da Abiquim, Fátima Giovanna Ferreira, introduziu informações à discussão. “O Polo do ABC é um dos mais expressivos do país. Praticamente 40% do que se produz no setor está aqui no Grande ABC”, afirmou.

Entre os pontos que foram destacados como necessidades para melhorar o desempenho da indústria química, uma das principais cadeias produtivas da região, estão o aumento da rentabilidade, para ampliar investimentos; e o ganho de competitividade.

O presidente do Sindicato dos Químicos do ABC, Raimundo Suzart, também falou sobre o potencial e possibilidades para o setor. “Temos espaço para aumentar (a participação) no mercado interno, mas também para exportar”, declarou o sindicalista, que mirou como possíveis novos mercados os países da América Latina.

O terceiro e último painel do seminário tratou sobre a “Indústria Automotiva: presente e futuro no ABC”. Carlos Manoel de Carvalho, membro da coordenação do Arranjo Produtivo Local (APL) de Ferramentaria do Grande ABC, vice-presidente da Abinfer e empresário do setor, apresentou dados que demonstram o potencial produtivo e de mercado que o país possui.

Modelos de negócios para o segmento ganharam destaque na explanação feita pelo empresário. Carvalho explicou que o modelo automotivo tradicional conta com as seguintes etapas de produção: engenharia de criação; engenharia de preparação dos meios de transformação; engenharia de construção dos meios de transformação e, por fim, engenharia de montagem.

Nas primeiras fases, a exigência de qualificação de mão de obra chega a superar em 10 anos a necessidade de conhecimentos para as funções de montagem de um automóvel. A diferença entre os salários é igualmente notável: da média de R$ 10 mil para a etapa de engenharia de criação para menos de R$ 3 mil para montagem.

De acordo com Carvalho, as marcas de automóveis entrantes no país estão trazendo seu próprio modelo de negócios, utilizando para a fabricação o conceito de CKD – kits prontos do automóvel para a realização apenas da etapa de montagem no país.

“O setor automotivo é global. As decisões levam em consideração o mundo. Aí não estamos na vantagem”, pontuou o empresário.

Mecanismos de estímulo à inovação no setor e da proteção do emprego e da produtividade da cadeia automotiva nacional foram mencionados, a exemplo do regime automotivo brasileiro Inovar-Auto, que teve participação ativa do ABC no processo de sua construção.

Durante a última rodada de debates do seminário, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Rafael Marques, afirmou que a recuperação econômica passa pelo trabalho de todos os atores envolvidos no processo e enfatizou a necessidade de medidas de reação para a superação da crise. “Vamos desfazer essa onda de ódio, que não interessa a nenhum trabalhador brasileiro”, disse.

O seminário “Os rumos da indústria no Grande ABC” foi promovido pelo Diário do Grande ABC, em parceria com a Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC e do Consórcio Intermunicipal Grande ABC, e patrocínio da Braskem. O evento aconteceu no Hotel Mercure, em Santo André.

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