23/09/2011 14:00
A região depende, e muito, da indústria. Em Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema, o setor é o responsável pela maior parte da arrecadação municipal. Por outro lado, especialistas garantem que cada vez mais o comércio aumenta representatividade na economia regional.
Pelo menos 57% do PIB (Produto Interno Bruto) de Santo André é do comércio. São Bernardo ganhou 5,9 mil novos estabelecimentos entre 1999 e 2009, totalizando 19,7 mil pontos comerciais. Marcas até então inéditas na região começam a chegar aos shoppings do ABC.
Para garantir a continuidade deste crescimento, economistas alertam para a importância da qualificação e da pesquisa de mercado para definir qual o rumo tomar. Isso por que além dos tradicionais polos comerciais dos centros das cidades, os bairros estão cada vez mais fortes quando o assunto é o comércio.
A grande variedade de produtos aliada a preços competitivos ajudam a impulsionar o comércio de rua do ABC. Os dois centros comerciais mais tradicionais – a rua Marechal Deodoro, em São Bernardo, e a região da rua Coronel Oliveira Lima, o calçadão, em Santo André – recebem entre 30 mil e 50 mil pessoas por dia.
“Em finais de semana que antecedem datas comemorativas, como o Natal e Ano Novo, a Oliveira Lima chega a receber até 200 mil pessoas por dia”, diz Hélio Farber, presidente da SOL (Sociedade Oliveira Lima e Região). O maior centro comercial do ABC possui cerca de 1,7 mil estabelecimentos comerciais, incluindo escritórios e consultórios médicos.
Segundo Hélio Farber, o mix de produtos vendidos a preços mais baixos do que os praticados em shoppings atrai, principalmente, o público C, D e E, mas a Oliveira Lima recebe consumidores de todas as classes econômicas. “Pessoas de todo o ABC e da Zona Leste da Capital frequentam nosso centro comercial, principalmente devido à facilidade do transporte, porque ficamos a poucos minutos da estação ferroviária e do terminal de ônibus”, comemora.
Já a rua Marechal Deodoro concentra 400 estabelecimentos comerciais e a grande maioria dos consumidores é das classes B e C, de acordo com Valter Moura Júnior, vice-presidente da Acisbec (Associação Comercial e Industrial de São Bernardo). “Aqui o público encontra preços mais baratos e grandes redes varejistas que a todo momento anunciam promoções, praticando uma concorrência ‘leal’ e estimulando o consumo”, destaca Moura Júnior.
Diversidade
Em Mauá, o principal centro comercial fica concentrado na avenida Barão de Mauá, região central. No local estão grandes marcas, como Casas Bahia, Magazine Luiza, Ponto Frio e Pernambucanas. ”O principal diferencial está na diversidade dos produtos, desde vestuário, calçados até eletroeletrônicos”, diz o presidente da Aciam (Associação Comercial e Industrial de Mauá), Antonio Corrêa.
Em Ribeirão Pires, a força do comércio de rua está nos centros velho e novo, que concentram cerca de 250 lojas. São Caetano possui dois centros comerciais expressivos: a rua Santa Catarina, no Centro, e a Visconde de Inhaúma, no bairro Vila Gerty. Em Rio Grande da Serra, o principal centro comercial fica na avenida Jean Lietaud. “Além da variedade de produtos, temos boa gama de ofertas, mas o ramo alimentício é o que mais se sobressai”, analisa o diretor administrativo da Aciargs (Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Rio Grande da Serra), Noel Aparecido Orácio.
De acordo com informações da ACE (Associação Comercial de Diadema), o município não possui centro em destaque. O comércio é pulverizado em vários endereços, como Serraria, Eldorado, Campanário, Piraporinha e Inamar.
Para Mariene Figueiredo, proprietária de quatro lojas da Água de Cheiro na região (na Oliveira Lima, Marechal Deodoro e nos shoppings Metrópole e Grand Plaza), os centros das cidades têm um glamour que não é encontrado nos shoppings. “As pessoas gostam de andar pelos centros”, avalia.
As lojas localizadas no comércio de rua têm movimento mais intenso do que as localizadas nos shoppings, conta a empresária. “O público do comércio de rua é fiel, aquele que trabalha no entorno dos centros comerciais e passa na hora do almoço para fazer compras.”, comenta.
Segundo Fabiano Pereira, proprietário da Nivalmix, que mantém unidades também em São Bernardo e Diadema, o movimento no comércio de rua é bom, mas sujeito às intempéries climáticas. “A única coisa ruim é que quando chove, acaba prejudicando as vendas”, diz.
Estacionamento é gargalo
Até mesmo a pequena Rio Grande da Serra lista a falta de vagas para estacionamento como um dos principais problemas enfrentados pelos comerciantes da região. Com o aumento da frota de veículos nos últimos anos, a saída para alguns municípios foi buscar na Zona Azul forma de democratizar os espaços livres nos centros comerciais.
Enquanto isso, os estacionamentos particulares faturam alto com os consumidores. A média da primeira hora fica em torno de R$ 4 a R$ 5. Em Santo André e São Bernardo, onde a situação é mais caótica, as alternativas giram em torno de estacionamentos verticais e subterrâneos, para dar conta da demanda.
“As vagas são cada vez mais escassas e não vemos resposta da Prefeitura para o problema. É preciso que o poder público ajude a encontrar alternativas logo”, reclama Hélio Farber. Segundo Valter Moura Júnior, o entrave está na captação de investidores para projeto de estacionamento vertical. “A falta de vagas acaba levando os consumidores para os shoppings”, avisa.
Loja de bairro atrai pela praticidade
As lojas de bairros atraem pela praticidade e atendimento personalizado. Nos pequenos centros, oferecem opções para todos os públicos, fidelizam consumidores e contribuem para fortalecer a economia local.
Em Diadema, a falta de um centro comercial principal fortalece bairros, como Serraria, Eldorado, Campanário, Piraporinha e Inamar, que já oferecem aos consumidores produtos e serviços de todos os tipos, como alimentos, vestuário, calçados, eletrodomésticos e utensílios para a casa, segundo a ACE (Associação Comercial e Empresarial) do município.
Bairros como vila Assis, Parque São Vicente e Itapark, em Mauá também costumam atrair quem não quer gastar com condução para fazer compras. “No entanto, locais como Jardim Zaira, Parque das Américas e Jardim Maringá começam a se organizar”, diz Antonio Corrêa, presidente da Aciam (Associação Comercial e Industrial de Mauá).
Rio Grande da Serra conta com quatro centros comerciais menores. “O que se vê é a abertura de lojas e nessa renovação novos centros”, comenta Noel Aparecido Orácio, diretor administrativo da Aciargs (Associação Comercial Industrial e Agrícola de Rio Grande da Serra). Já em Ribeirão Pires é possível identificar cinco centros comerciais menores.
São Bernardo conta com mais de 15 centros comerciais instalados nos bairros. Além dos tradicionais como Rudge Ramos, Baeta Neves, Assunção e Planalto, já é possível ver aumento no número de estabelecimentos no Alvarenga e Riacho Grande, segundo Valter Moura Jr., vice-presidente da Acisbec (Associação Comercial e Industrial de São Bernardo do Campo). “Aos poucos as lojas estão chegando nestes bairros”, diz.
Com floricultura na Estrada do Alvarenga há 18 anos, Maria do Carmo da Silva destaca que a vinda de mais lojas poderia ser intensificada com a presença de uma casa lotérica e bancos no bairro. “Aqui a gente só tem caixas 24 horas e uma agência da Caixa dentro do supermercado”, conta.
Atendimento personalizado faz parte da receita
Para o consumidor, o fato de não precisar garimpar vagas em estacionamentos e enfrentar trânsito, somado à possibilidade de negociar direto com o proprietário ganha ponto. “Com as lojas nos bairros, as pessoas já não precisam se descolar e podem comprar com mais calma”, ressalta Moura Jr.
Graça Lanzoni, gerente de uma loja de roupas no bairro Alvarenga, conta que é de praxe avisar os clientes quando chega mercadoria nova. “Nossos clientes são fieis e pagam por mês, por isso, criamos essa proximidade”, comenta.
Santo André lançou, em 2010, o programa Bairros Mais Fortes, com o intuito de fortalecer os cerca de 25 centros de comércios de bairro por meio de palestras com apoio do Sebrae e Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André). Segundo o superintendente da Associação, Luis Sampaio da Cruz, o objetivo é qualificar os empresários e os empregados.
Grifes chegam à região
Com boa infraestrutura e público consumidor bastante diversificado, o ABC atrai a chegada de marcas novas ou já reconhecidas até internacionalmente. Uma das âncoras desse movimento é o ParkShopping São Caetano, que abre as portas dia 27 de outubro com grifes como M.A.C, Zara, Farm, Animale e Barbara Strauss, esta com investimento aproximado de R$ 185 mil.
A carioca City Shoes também desembarca no ABC, em outubro. Para a sócia Vanessa Imenis, é visível o crescimento do varejo na região. “Estava mais do que na hora de o ABC receber grandes marcas”, afirma Vanessa, ao acreditar que a saída de consumidores em busca das famosas marcas na Capital vai desaparecer.
Outra novata é a Valisére. Há três meses no Shopping ABC, em Santo André, a loja atende mulheres da classe A e B. “Era muito importante para a Valisére estar no ABC, já que a fábrica já foi na região e temos público bastante cativo aqui”, afirma Genevieve Junqueira, gerente de Marketing.
Também nova no Shopping ABC é a Shoulder, marca de moda feminina, com 10 unidades no centro de São Paulo. “Percebemos que o consumidor do ABC aceita muito bem diversos tipos de produtos”, afirma Leda Valverde, proprietária da Shoulder, que pela primeira vez sai da Capital.
Na gastronomia, a novidade é o Outback Steakhouse, que programou este ano dois restaurantes, com investimento de R$ 8 milhões. Em São Bernardo, a marca chegou em agosto, no Shopping Metrópole. O segundo endereço é o ParkShopping São Caetano, que tem previsão de abrir em novembro.
Shoppings inovam para atrair mais
A onda de novidades resultou em reformas nos shoppings. Com as obras quase concluídas, o Shopping ABC prevê para novembro inauguração do layout revitalizado e com a decoração do Natal. Nos próximos meses chegam a Le Lis Blanc e Bibi Calçados.
“O Shopping já possui mais de 20 lojas exclusivas da região e se torna, cada vez mais, uma opção para o público”, afirma Felipe Wasserman, gerente de Marketing do Shopping ABC.
Também em novembro o Shopping Metrópole conclui as obras de expansão para abrigar mais 31 novas lojas. Também em reforma, com conclusão prevista para setembro de 2012, o Grand Plaza tem algumas marcas já confirmadas para a nova fase: Renner, Riachuelo e Fast Shop. “As vendas vêm crescendo e o crescimento imobiliário em Santo André também estimula”, afirma o superintendente Henrique Carvalho.
Qualificação e gestão são determinantes
Independentemente se o comércio está localizado nos bairros, nos centros urbanos ou nos shoppings, a qualidade no atendimento e do produto atrelada a boa gestão são determinantes para o sucesso do setor. Especialistas defendem que estes são ingredientes fundamentais para que o comércio da região ganhe ainda mais representatividade e força na economia local.
Porém, para manter a qualidade no atendimento e no serviço oferecido – fundamental para que o setor ganhe cada vez mais consumidores, é necessário o investimento contínuo em gestão e treinamento.
“Aqui na região é possível encontrar desde estabelecimentos excelentes, até aqueles que precisam melhorar muito. O fato é que desde a década de 1990, com a abertura da economia, as empresas tiveram de mudar de postura”, conta José Roberto Rodriguez Silva, analista do Sebrae no ABC.
Silva defende que é necessário que sempre haja preocupação com a gestão dos negócios e com a qualificação constante. Radamés Barone, professor de Economia da USCS (Universidade São Caetano do Sul) defende o mesmo princípio. “Observamos que há um aumento dos equipamentos tanto no comércio de rua quanto nos shoppings, que estão cada vez mais preocupados com a modernização e com a adaptação de acordo com o que o público pede”, destaca.
Para o professor, um dos sinais que o comércio da região passa por evolução é que a demanda tem ficado mais qualificada. “As pessoas estão cada vez mais exigentes”, lembra.
Fonte: Repórter Diário
